© Beatriz Pequeno

Artista e investigador. Lésbica não-binárie.

A prática de Ritó Natálio abrange as artes performativas, a antropologia e a ecologia, frequentemente em diálogo com comunidades queer e indígenas e através de metodologias experimentais de investigação artística, estratégias curatoriais interdisciplinares e formas públicas de divulgação do conhecimento.

Uma parte fundamental do seu trabalho envolve text-based performances, que estabelecem uma ponte entre contextos artísticos e académicos, explorando de que maneiras pode a performance funcionar como um espaço de estudos e de engajamento com questões de território, ecologia decolonial, justiça transicional e transmissão crítica. A sua prática contextual e multidisciplinar move-se fluidamente por diferentes formatos — do palco à cozinha, do livro ao ecrã — e estende-se frequentemente a workshops que combinam práticas somáticas, escrita e propostas de pedagogia radical.

Ritó Natálio criou diversas performances-palestras sobre a relação entre linguagem e geologia, que foram apresentadas internacionalmente: “Antropocenas” (2017) com João dos Santos Martins, “Geofagia” (2018), e “Fóssil” (2020). Em 2023, criou “Spillovers”, uma reinterpretação fabulada e coletiva de “Lesbian peoples: Material for a Dictionary” (1976) — obra icónica do feminismo lésbico de Monique Wittig e Sande Zeig —, adaptada para performance, filme (Prémio Casa Comum no 10.º Queer Porto) e livro. Em 2025, estreou “Rito de Transição: Corpo T”, uma coprodução com o Teatro Nacional D. Maria II no âmbito do projeto europeu STAGES. Ritó possui um doutoramento em Estudos Artísticos e Antropologia com bolsa FCT, é mestre em Psicologia Clínica (PUC-São Paulo) e graduado em Artes Coreográficas (Universidade Paris VIII). Publicou artigos académicos, textos de artistas e editou publicações independentes ligadas às suas pesquisas. Em 2019, no Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa, Ritó co-organizou uma mostra de cinema indígena com cineastas e curadores indígenas, juntamente com uma plataforma coletiva de investigadores e ativistas de Portugal, nomeadamente Ailton Krenak. Desde 2020, coordena a plataforma Terra Batida (terrabatida.org), uma rede de pessoas, práticas e saberes em disputa com formas de violência ecológica e políticas de abandono. Colabora, desde 2023, com a rede least — laboratório de artes e ecologia sediado em Genebra — no projeto “Peau Pierre” (Pele Pedra), um projeto de longa duração com foco em pedagogias ecoqueer em co-criação com associações locais. Coordenou também dois laboratórios quadrimensais com Amador Alina Folini para jovens entre os 18 e 25 anos, no contexto do projeto Imagina do Serviço Educativo da Fundação Calouste Gulbenkian (2022-23). Artista associado da Associação Parasita, uma estrutura financiada pela República Portuguesa – Ministério da Cultura, Juventude e Desporto/Direção-Geral das Artes entre 2023-2026.

Interessa-me a diferença porosa entre pessoas e coisas, e os limites entre a linguagem como corte (fixando normas e identidades) e a linguagem como fluxo, não-comparativo. É possível pressupor na “abstração” da linguagem do corte a sua força de “extração”, assim como é desejável pensar a linguagem como corrente ou fluxo, isto é, uma língua da travessia.

Ritó Natálio

Não    geologia de um lado e histórias de outro. Há, na verdade, um eixo de poder e performance que se encontra dentro destes objetos geológicos e das narrativas que contam sobre a história humana. As origens do Antropoceno, viajando para a frente e para trás através da materialidade e da narrativa, são intensivamente políticas na forma como nos trazem o presente e dão forma a sujeitos criadores de mundo. 

Kathryn Yussof, A billion black anthropocenes or none, 2019.