O trabalho de João dos Santos Martins explora relações entre dança, linguagem e transmissão. Para esta performance, o bailarino e coreógrafo toma o corpo como campo de negociação entre natureza e construção. O trabalho dialoga com a sua experiência pessoal de migração do meio rural para o urbano, e da ideia de adaptação — do corpo e do sujeito. Tal como o paisagista brasileiro Burle Marx entendia o jardim como uma “adequação do meio ecológico às exigências da civilização”, a migração revela um processo contínuo, muitas vezes violento, de ajuste de gestos e relações.
A dança é abordada como prática de desaprendizagem e reinvenção: um exercício de reconhecimento das camadas sociais e corporais que se acumulam na tentativa de adequar hábitos vistos como estranhos, brutos ou selvagens. Mais do que representar uma identidade, dos Santos Martins procura um campo de fricção entre noções de natureza, ruralidade e cultura. O corpo torna-se matéria em processo, na qual o dentro e o fora dialogam abrindo-se a outros modos de escuta e atenção.