Coisa-Ponta (em criação)

um dueto de
Ana Rita Teodoro & Márcia Lança
setembro de 2026

Uma coisa certa mais uma cuisa errada

O desejo de fazer uma peça juntas nasce na cumplicidade começada no ano de 1999 quando nos vimos pela primeira vez no Chapitô. Aos 17 anos tínhamos o desejo de ser artistas de circo, só que numa incursão ao Centro de Arte Moderna vimos arte surrealista que falava através dos quadros. Nos anos seguintes frequentámos juntas as aulas do Chapitô, do c.e.m , do Fórum-Dança e acordávamos cedo para assistir, espontaneamente, às aulas do Delfim Sardo nas belas artes. Fomos percebendo, cada uma à sua maneira, que o circo junto à dança nos abria um espaço de criação que nenhuma das duas disciplinas por si só nos proporcionava. E havia alturas em que nos  encontrávamos numa casa popular e uma ficava a ver a outra mastigar dentes falsos enquanto rodava sobre si mesma. Juntas em Coisa-Pedra (desculpem Coisa-Ponta) pretendemos explorar o surrealismo do ridículo, do non sense, do ilógico, de uma temporalidade não linear e não narrativa. Voltar a ler o nosso tão querido tio Mário Cesariny e mascarar-nos das mulheres surrealistas de 2026. Queremos trabalhar com uma estética do DIY (feito em casa), com o que há no lixo e na papelaria do bairro, inspiradas na Sophie Taeuber-Arp e nos respigadores de Agnes Varda. Para dar uma ideia mais clara: temos duas máquinas de costura e muitos saberes ocultos. O non sense é uma força política, uma maneira de pensar que não se encaixa nas lógicas neoliberais e fálico-capitalistas – quando há festa na cama a gente veste o pijama e eu digo falo, falo, falo, falo, falo, falo! – Coisa-Ponta é um lugar desconhecido em que o saber prévio não dirige. Expôr-se ao ridículo é contrariar as lógicas do sucesso, do bem parecer, do ficar bem na foto. Pergunta: O que é o sucesso? Resposta: É uma mulher vestida de cubo deitada na diagonal de um espaço vazio. Em termos de processo será na base da porrada, porque enquanto feministas estamos doridas do conceito de cuidado. Não é uma metáfora, serão usufruídos murros e pontapés na resolução de conflitos durante o processo artístico. Entre as lides da casa, muitas escreveram livros, nós falamos com espuma cor de rosa fofinha na boca. Viva a voz! Como podemos partilhar coisas que não fazem parte de uma visão comum? São elas absurdas? Que lugar imaginável abre o inimaginável? Crer é poder? Quando nos deitamos por cima uma da outra somos parecidas? Quando saltamos a cantar, somos parecidas?

Woman with egg by Leonora Carrington

Woman with egg by Leonora Carrington