Coisa-ponta
um dueto de
Ana Rita Teodoro & Márcia Lança
Uma coisa certa mais uma cuisa errada
Quando éramos pequenas esfolámos os dois joelhos, de joelhos esfolados subimos uma escada muito alta, mais alta que o pinheiro, mais alta que o cipreste. Continuámos a subir, escadas que se transformavam em torres, torres que se transformavam em palácios. Parecia que a primavera nos pregava uma partida. Então decidimos que dali nunca mais mentiríamos, dali para a frente nunca mais seríamos nós. Então caímos de alto a baixo, onde mais baixo não havia e gritámos! Gritámos durante anos um grito velho e bolorento, até que da nossa boca saiu um grilo amigo do grito. Olhámo-lo e perguntamos: quando chega a neve? quando acaba o tempo? quando começam as festas? Ele respondeu: cri cri.
Coisa-Ponta nasce de uma afinidade antiga entre Ana Rita Teodoro e Márcia Lança: quando em 1999, viram, pela primeira vez, arte surrealista juntas. Este evento abriu uma brecha fascinante que as levou a entrar num fazer artístico guiado por um adormecer daquilo que na intenção é de propósito como forma de aceder ao inimaginável. O surrealismo permitiu-lhes também um espaço múltiplo que nenhuma disciplina por si só lhes proporcionava — ser surrealista é Coisa-Séria.
Neste trabalho, procuram colocar a sua afinidade ética e estética em conversa com as técnicas e processos surrealistas. Ativando os seus modos de fazer enquanto estratégia de composição — o cruzamento de matérias, a desativação da ação consciente, o juntar de coisas que, à partida, estariam separadas — Coisa-Ponta cria um espaço díspar onde o sensível e o não-sentido operam como rainhas aleatórias.
Nesta criação em curso, propomo-nos pensar e questionar o que significa ser uma mulher surrealista em 2026, e de que forma esse legado continua a ressoar e a transformar as práticas artísticas contemporâneas.
— Ana Rita Teodoro e Márcia Lança
© Violena Ampudia
© Violena Ampudia
"Woman with egg", 1957, Leonora Carrington
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⌂ FICHA TÉCNICA
Criação e performance: Ana Rita Teodoro e Márcia Lança
Desenho de luz e Coordenação técnica: Laura Salerno
Assistência e colaboração em luz: Jay Collin
Desenho de som: Suse Ribeiro
Canções e letras: Ana Rita Teodoro e Márcia Lança ("Música de Perigo", adaptada de uma composição original de Greg Moore para "As Troianas" de Eurípedes em 2001)
Acompanhamento de voz: Mariana Camacho
Acompanhamento dramatúrgico: Sofia Lapa
Assistência de criação: Lucia Gianonni
Figurinos: Leen Van den Bogaert
Adereços: Bruno Bogarim
Fotografia: Violena Ampudia
Olhar sobre os poemas: Miguel Pipa
Design de libreto: Cláudia Lancaster
Tradução de libreto: Joseph Owens
Audiodescrição: Escuta Plataforma (Inês Gonçalves, Isadora Dantas e Leo Perene)
Produtores executivos: Andrei Bessa e Francisca Salema
Direção de Produção: Catalina Lescano
Administração: Helena Baronet
Produção: Associação Parasita
Coprodução: Circular Festival de Artes Performativas, Alkantara Festival, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, VAGAR
Residências de criação: Estúdios Victor Córdon, Casa da Dança, Piscina, Forum Dança, Espaço Parasita
2026
26.09
Ana Rita Teodoro & Márcia Lança
Coisa-ponta (Estreia absoluta) / Auditório Municipal de Vila do Conde (Circular Festival de Artes Performativas)