Título:
BOCA DA TERRA: EFEITO ANTROPOCÉNICO E VIOLÊNCIA ECOLÓGICA NAS PRÁTICAS ARTÍSTICAS
Orientação:
Prof. Margarida Brito Alves (FCSH-UNL) e Prof. Renato Sztutman (FFLCH- USP)
Bolsa FCT PD/BD/128483/2017
Instituto de História de Arte – Universidade NOVA de Lisboa
Programa de Antropologia Social – Universidade de São Paulo
Palavras-chave
Antropoceno, fabulação, fóssil, geologia, performance, poesia
Resumo
Se as práticas artísticas podem ser formas de investigação e de criação de saberes, um projeto de investigação pode ser experimentado e atravessado como um processo artístico. Neste trabalho, tento dar forma a estas ideias. Parto da performance e, em particular, da escrita para performance como uma zona erótica e flexível entre arte e teoria, reflexão científica e prática poética, conferência e performance, ecologia e antropologia. Para isso, tomo como ponto de partida os debates e as literaturas das últimas duas décadas em torno da oficialização de uma nova época geológica — o Antropoceno —, cuja definição temporal estaria baseada na inscrição das ações humanas nas camadas estratigráficas da Terra. Ao demonstrar como este conceito abre inúmeros problemas estruturais de representação e representatividade, espacialidade e temporalidade, responsabilidade e responsabilização, natureza e humanidade, contraponho-lhe um gesto especulativo e ficcional que tenta ampliar e sonhar, de forma porosa e frondosa, as relações entre linguagem, escrita, autoria, fala, corpo, género e terra. Ao longo deste texto, assim como do processo artístico-prático da investigação, propus-me a atravessar um conjunto de práticas de escrita, e de projetos de performance e curadoria que desenvolvi entre 2017 e 2023, e que integram, nos seus fazeres e na sua escuta, os efeitos da instabilidade ambiental e da violência ecológica atuais numa perspetiva histórica e crítica. Essa matéria empírica é, passo a passo, trançada e ampliada por um conjunto de vozes que permeiam as humanidades ambientais, a antropologia da viragem ontológica, a antropologia e a arte indígenas no Brasil, a ecologia decolonial, os black studies, a fabulação especulativa e a poesia, ensaiando uma transição da linguagem, poética e teórica, movida por uma perspetiva não-binária e em confronto aberto com os limites históricos dos conceitos hegemónicos de natureza e de humanidade de matriz moderna euro-americana. Um texto para acompanhar a boca da terra que quer falar.