The desire to bring the real body violently to life in the words of the book (everything that is written exists).
Monique Wittig
Em 2020, foi encontrado um livro dentro de um poço. O poço estava, como muitas outras cavidades da vida, contaminado por atividades superficiais de monocultura intensiva. A sua água, tornada insalubre, havia secado por tempo indeterminado. Foi neste buraco seco, embora visceralmente marcado pela memória da água, que foi encontrada uma tradução de “Lesbian peoples: material for a dictionary” escrito em 1976 por Monique Wittig e Sande Zeig.
Ritó Natálio
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A construção de Spillovers parte de Lesbian peoples: material for a dictionary. Escrito em 1976 por Monique Wittig e Sande Zeig, trata-se de um dicionário para amantes que procura desenhar os contornos de um léxico emocional, sensorial e político. Ritó Natálio constrói uma releitura fabulada desta obra icónica do feminismo lésbico sob a forma de uma conferência dançada, musicada e coletiva, onde se aborda um glossário transfeminista atual em diálogo com a memória deste livro. Spillovers são amantes ou talvez estados transitivos da identidade, convocam o corpo e o erotismo para a criação de alternativas para problemas ecológicos atuais e, eventualmente, para a produção de água.
Esta performance-filme, estreada e co-produzida em Portugal pelo Batalha Centro de Cinema, foi desenvolvida, coletiva e cumulativamente, com colaborações de diferentes spillovers: Amador Alina Folini, com quem Natálio iniciou o projeto; Josefa Pereira e Teresa Ves Liberta, na performance e texto; Liz Rosenfeld e Aline Belfort, na dimensão audiovisual; Odete na música e canto; depoimentos do bailarino Eríc Santos, do multiartista não-binário Lui L’Abbate e da ativista e psicóloga indígena Geni Núñez; uma peça Kaibô de Amanda Silva e Margot Silva; além de toda uma rede de iconografias e textualidades que transbordam as cosmovisões desta comunidade inventada.
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O processo de desenvolvimento de Spillovers foi apoiado por dois projectos europeus.
Em 2020, a Create to Impact Network apoiou o processo de reescrita do livro Lesbian peoples: material for a dictionary, em diálogo com outras referências contemporâneas como Astrida Neimamis, Audre Lorde, Dionne Brand, Kathryn Yusoff, Isabelle Stengers, Malcom Ferdinand, Valentina Desideri & Denise Ferreira da Silva, Ursula K. Le Guin, entre outras.
Em 2021, Pass the Mic! Decolonizing education through arts ligou Ritó Natálio a uma residência artística numa escola secundária da Amadora, na periferia de Lisboa, trabalhando com um grupo de alunos semanalmente ao longo de três meses entre os campos da dança contemporânea e da performance, movimentando questões que ligam ecologia, identidade de género e sexualidade, mas também movimento, performance e revolta.
Em 2022, o processo culminou numa leitura performativa a solo do trabalho que foi apresentado em diferentes contextos, como Portugal Arts Encounters em Coimbra e Short Theater Festival em Roma. Paralelamente, foram desenvolvidas diferentes experiências de ensino, ligando protocolos ficcionais e performativos, em diálogo com Spillovers: duas edições de um Fabulatório de 4 meses na Fundação Calouste Gulbenkian, coordenado com Amador Alina Folini, e um Laboratório de Performance semestral no Mestrado em Performance e Estudos de Género oferecido pela Universidade de Veneza.
Em 2023, o renovado Centro de Cinema Batalha encomendou uma versão alargada e final da obra.
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Spillovers entrelaça performance e escrita, imaginação e experiência somática, transfeminismo e ecologia. Para além do filme-performance coletivo, o projeto desdobra-se numa publicação e numa instalação cinematográfica autónoma, que poderá ser apresentada em contextos de exposição, de projeção de cinema e de pedagogia. Também os workshops são valorizados como ações complementares que se seguem à apresentação de Spillovers.
www.youtube.com/watch?v=reGIb7GkmUM