Conferência-dançada sobre os ensinamentos e práticas de Butô de Yoshito Ohno, pela sua aluna Ana Rita Teodoro.
Um dos pontos de partida desta pesquisa foi a sensação de que existe uma dominação importante da estética do butô e dos seus clichés (as figuras torcidas, pintadas de branco e de movimentos lentos) sobre os pensamentos e os processos que permitiram construir uma arte que abalou todo um contexto e uma época. O conhecimento geral relativo ao butô é um conhecimento baseado nas imagens e na estética apresentada nas performances e que, por isso, perpetua os seus clichés.
O meu encontro com o butô fez-se pela descoberta de Hijikata Tatsumi, Kazuo Ohno e do contexto artístico dos anos 60 em Tóquio. Apaixonei-me pela audácia das propostas artísticas, mas também pela maneira de “fazer e pensar a dança”. Esta paixão conduziu-me desde cedo a diversos estúdios de butô para participar em workshops, na Europa e também no Japão. E estas experiências convenceram-me de que a particularidade e riqueza do butô se encontram nos seus processos de aprendizagem. Como, por exemplo, na construção de um imaginário corporal composto de palavras e imagens e, sobretudo, na ausência de modelos de movimento para copiar.
Yoshito Ohno desenvolveu uma prática de ensino da dança butô — herdeira dos ensinamentos de Hijikata Tatsumi e de Kazuo Ohno — em torno de objectos, materiais ou imateriais: algodão, pano (*tenugui*), cana de bambu, uma bola; ou ainda uma imagem, uma música, uma palavra inscrita num carácter japonês. Depois de distribuir estes elementos aos seus alunos, Yoshito costumava dizer: “Your Teacher, please!”. Isto significa que é o objecto que se torna professor. Por vezes dizia também: “Meet your body now”.
Estas frases simples abrem a percepção do aluno às sensações provocadas pelos objectos — a ligeireza e a suavidade, a força e a resistência — e permitem construir um imaginário corporal através da experiência directa. Com a expressão “Your Teacher, please!”, Yoshito transfere para o objecto uma parte da função de ensino e retira-se enquanto única fonte de conhecimento. À medida que a prática avança, os alunos podem abandonar os objectos e continuar a dançar sem eles, compreendendo que estes funcionam como intermediários na construção do seu corpo de bailarino.
Com o desaparecimento progressivo da primeira geração de bailarinos de butô, pareceu-me urgente voltar aos seus estúdios e recolher os seus modos de transmissão e de ensino, dando atenção ao professor, ao seu modo de ensinar e às modificações que ocorrem no corpo dos bailarinos-alunos.
Esta pesquisa procura assim restituir os processos dinâmicos de fabricação de uma dança butô, para melhor se afastar de uma estética que parece, por vezes, fixa nos seus clichés.
Entre a multitude de estúdios e professores de butô que estão activos nos dias de hoje, concentrei-me nos cursos de Yoshito Ohno que tiveram lugar, até Janeiro deste ano, data do seu falecimento, todas as terças-feiras e domingos no Kazuo Ohno Dance Studio de Kamihoshikawa, no Japão. Participei nas aulas de Yoshito Ohno em três momentos: em 2008, numa primeira viagem; em 2015, durante dois meses; e em 2016, durante um mês e meio.
Nesta conferência, *Your Teacher, Please*, vou atravessar matérias da dança butô que me foram transmitidas por Yoshito Ohno no seu estúdio, a partir da minha experiência de aluna.