Two Little Kids (Duas Pequenas Crianças) toma o nome de um conto escrito no final da década de 1930 pelo poeta vietnamita Thạch Lam. O conto retrata uma pequena e monótona cidade a definhar sob o pano de fundo da ocupação colonial francesa. Quase nada acontece: as pessoas entram e saem do campo de visão, aparecem e desaparecem sem consequências dramáticas, movendo-se através de uma atmosfera de desespero e exaustão. Extrapolando esta condição de vida nua para o Vietname contemporâneo do pós-guerra, Two Little Kids torna sensível a opressão monótona que constitui o clima da guerra. A guerra persiste não como um acontecimento do passado, mas como um presente incessante, permeando o quotidiano e exercendo uma pressão atmosférica cuja totalidade é impossível suportar.
Estreada em 2023 na American Academy of Arts and Letters e no The Kitchen, em Nova Iorque, a primeira versão de Two Little Kids abordava esta pressão atmosférica sobretudo através da humidade e do feedback sonoro. Esta reposição a solo em Lisboa volta-se para o corpo que já não consegue conter essa pressão. O corpo torna-se radicalmente permeável: a urina flui incessantemente, enquanto as palavras não param de transbordar da boca, ao ponto de falar se tornar uma outra forma de excreção. Neste estado de fuga incontrolável, não há princípio nem fim, apenas uma intensidade que continua.
Residente entre Brooklyn e Hanói, Anh Vo (n. Vietname, 1995) coreografa e escreve, trabalhando no campo expandido da performance. A sua prática mobiliza o corpo nu nas suas diversas formas para tornar explícito o entrelaçamento de relações de poder e forças espectrais que atravessam a carne. O seu trabalho emerge de convergências entre a performance experimental da Baixa de Nova Iorque, a performance-arte de Hanói e os rituais populares vietnamitas. Vo reconhece como referências fundamentais a identidade queer e o excesso sem concessões de Miguel Gutierrez, o compromisso especulativo de Moriah Evans com a profundeza da interioridade, a poética duracional da intimidade de Julie Tolentino, a mestria improvisacional de Juliana May, o sentido existencial do tempo de Tehching Hsieh e a paisagem sonora gutural do Vietname do pós-guerra de Ngoc Dai. A sua formação académica é em Estudos da Performance na Brown University (BA) e na New York University (MA). Vo é atualmente docente convidade de Escultura na Cooper Union.