{"id":1265,"date":"2020-08-07T16:46:29","date_gmt":"2020-08-07T16:46:29","guid":{"rendered":"https:\/\/parasita.eu\/ana-rita-teodoro\/fofo\/"},"modified":"2026-02-26T11:36:11","modified_gmt":"2026-02-26T11:36:11","slug":"fofo","status":"publish","type":"cpt_ana_rita_teodoro","link":"https:\/\/parasita.eu\/en\/ana-rita-teodoro\/fofo\/","title":{"rendered":"FoFo"},"content":{"rendered":"<p>A pe\u00e7a FoFo tem como ponto de partida o <em>kawaii<\/em>, um modo de vida enraizado na cultura japonesa. No campo sem\u00e2ntico, refere-se \u00e0 ideia de vulnerabilidade e fragilidade, a pessoas, imagens ou objectos ador\u00e1veis. O <em>cute<\/em> em Ingl\u00eas, <em>mi-mi<\/em> em Franc\u00eas,<em> fofo<\/em> em Portugu\u00eas, encontra-se codificado em todos os lugares. Relacionado com o mundo infantil e tendencialmente feminino, expressa-se pelas suas muitas cores, pelas suas formas redondas e tranquilizadoras, pela sua passividade, maleabilidade e despropor\u00e7\u00e3o das mascotes que apresenta (olhos grandes, boca pequena, etc).<\/p>\n<p>Intrigada com a ambival\u00eancia desta rela\u00e7\u00e3o com o mundo, analisei <u>algumas<\/u> das quest\u00f5es f\u00edsicas e pol\u00edticas levantadas pela est\u00e9tica \u201cfofinha\u201d. Devemos olha-la como um s\u00edmbolo de um consumismo regressivo e uma forma de apaziguamento do pensamento critico? Ou como um elogio \u00e0 fragilidade, \u00e0s coisas de pouca ac\u00e7\u00e3o e, como potencial gesto contra aquilo que \u00e9 duro e preestabelecido? N\u00e3o negando a primeira op\u00e7\u00e3o, \u00e9 sobretudo, na segunda op\u00e7\u00e3o que me concentrei. Tentando olhar para o fofinho como um poss\u00edvel gesto de rebeli\u00e3o e de emancipa\u00e7\u00e3o e, tentar, ao fazer uma pe\u00e7a de dan\u00e7a \u201cfofa\u201d, libertar este conceito dos preconceitos, abrindo o seu campo interpretativo.<\/p>\n<p>Como extens\u00e3o e contraponto ao conceito \u201cfofinho\u201d, quiz olhar para o subjectivo que coordena o \u201ccorpo-adolescente\u201d. Porque o \u201ccorpo-adolescente\u201d, essa<em> metamorfose ambulante<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>,<\/em> est\u00e1 na fronteira entre o mundo infantil e o mundo adulto, entre o mundo macio e o mundo concreto. Comecei por seguir nas redes sociais, figuras como Haruka Kurebayashi e Lin Lin Doll, que assumiram um modo de vida <em>kawaii <\/em>e recriaram assim, o seu destino t\u00e3o facilmente marcado pela sociedade japonesa (e em geral). Raparigas e rapazes livres (at\u00e9 determinado alcance) das normas impostas \u2013vestem-se de forma n\u00e3o-normativa, comem de forma n\u00e3o-normativa, trabalham pelas suas convic\u00e7\u00f5es. De seguida, olhei para os corpos-adolescentes presentes no cinema de Larry Clark e Korine Harmony<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Nos seus filmes, fui marcada pela sensa\u00e7\u00e3o de um \u201cpresente extremo\u201d criado pelo contexto social dif\u00edcil, estes adolescentes e crian\u00e7as ocupam-se a sobreviver tirando o maior prazer poss\u00edvel do seu contexto. Se no caso do<em> kawaii<\/em> o movimento temporal a adoptar \u00e9 o de retrocesso (infantiliza\u00e7\u00e3o), os adolescentes de Harmony e Clark vivem num presente extremo, onde o futuro nunca se apresenta.<\/p>\n<p>A adolesc\u00eancia, \u00e9 marcada pela press\u00e3o de escolher um futuro. Considero que estas \u201cpress\u00f5es\u201d s\u00e3o extremamente violentas e castradoras. A obsess\u00e3o com o futuro cria problemas, porque obriga a escolher rapidamente caminhos j\u00e1 tra\u00e7ados e obriga a pensar como os outros, em vez de pensar por si mesmo. Mas, \u00e9 claro que a nega\u00e7\u00e3o de um futuro tamb\u00e9m cria problemas&#8230; A pe\u00e7a FoFo encontra-se no limbo desta quest\u00e3o, por um lado a necessidade de construir um presente sem recriar futuros t\u00f3xicos e por outro, o tempo que avan\u00e7a e que pede concretude e, p\u00e3o na boca.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a FoFo n\u00e3o reproduz est\u00e9ticas associadas ao fofinho mas, tenta transcrever <u>alguns<\/u> dos seus processos. Porque FoFo \u00e9 uma pe\u00e7a de dan\u00e7a, o que a define s\u00e3o um conjunto de dan\u00e7as sem futuro, concretudes soltas ao acaso, mudan\u00e7as de projecto, processos de \u201cmonstrifica\u00e7\u00e3o\u201d e constata\u00e7\u00f5es \u201csenxuais\u201d (sensuais e sexuais). Que acontecem, na tenta\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o c\u00e9nico de um extremo-presente, habitado por corpos de baixa tonicidade, macios, male\u00e1veis, resistentes \u00e0 viol\u00eancia, saborosos e entusiasmados.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Citando Raul Seixas &#8211; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7VE6PNwmr9g\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">video<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Kids (1995) de Larry Clark e Korine Harmony; Gummo (1997) de Korine Harmony\u00a0; Ken Park (2002) de Larry Clark.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"template":"","cat_ana_teodoro":[97],"cat_projectos":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/parasita.eu\/en\/wp-json\/wp\/v2\/cpt_ana_rita_teodoro\/1265"}],"collection":[{"href":"https:\/\/parasita.eu\/en\/wp-json\/wp\/v2\/cpt_ana_rita_teodoro"}],"about":[{"href":"https:\/\/parasita.eu\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/cpt_ana_rita_teodoro"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/parasita.eu\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"cat_ana_teodoro","embeddable":true,"href":"https:\/\/parasita.eu\/en\/wp-json\/wp\/v2\/cat_ana_teodoro?post=1265"},{"taxonomy":"cat_projectos","embeddable":true,"href":"https:\/\/parasita.eu\/en\/wp-json\/wp\/v2\/cat_projectos?post=1265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}